Museus para quê?

     Existem 3300 museus reconhecidos no Brasil (maior do que o número de cinemas, embora muito menos visitados do que esses) distribuídos em 1000 municípios. Tendo grande importância para a memória coletiva e social local, além de contribuírem de maneira única para a ciência e a educação, museus colaboram para o aprimoramento de diversos processos pedagógicos que, como seres humanos, vivenciamos ao longo de nossas vidas. Assim mesmo, ainda estamos distantes de uma realidade em que um museu se faz presente em nosso cotidiano. Esperamos, com este texto, contribuir para a mudança desse cenário.

Vídeo do British Council Brasil trazendo diferentes percepções quanto ao tema dos museus.

Museus podem ser educativos?

     No Brasil, museus geralmente ainda são encarados como supérfluos, um lazer para aqueles que conseguem entender suas obras (é claro que outros países também enfrentam o mesmo problema, mas aqui preferimos direcionar nosso foco à realidade brasileira). Na época da escola, a visita ao museu não é interpretada como uma aula, mas como um divertido passeio. É claro que ao discutirmos sobre um país com inúmeras e variadas mazelas sociais, fica difícil de exigir que as pessoas reconheçam os museus como um local de aprendizagem ativa e não como um mero armazém de quinquilharias. 

     Talvez em algum momento de nossa história eles realmente não tenham sido muito mais que armazéns, mas lembre que os museus acompanham as sociedades há uns bons séculos e, em função disso, sofreram mudanças profundas em sua organização e concepção de acessibilidade pública. Deste modo, museus atuais não olham somente para suas próprias coleções, mas também para o seu público. Influenciam outras categorias de museus e organizam-se, ao longo do tempo, de forma quase uniforme, mantendo uma ligação com as questões de cunho educacional (Valente, 2005).

     Em termos técnicos, podemos considerar os museus como espaços de educação não formal. Ou seja, um tipo de educação onde os elementos relacionados ao espaço, tempo e público, ganham delimitações próprias, diferenciando-se de um âmbito educativo formal (escolas tradicionais, por exemplo). Mas como isso funciona na prática? Afinal, você pode ir para um museu por N motivos além de buscar aprendizado sobre determinado(s) tema(s). Em função disso, é importante considerarmos que, quando falamos de uma visita educativa a um museu, estamos falando das seguintes possibilidades:

  • Atendimentos especializados a Visitas Escolares (seja com monitores, apoio de materiais didáticos, ou formação prévia dos professores);
  • Programas de Formação de Professores;
  • Programas de Acantonamento;
  • Colônias de férias;
  • Contadores de história;
  • Programas de Inclusão Social e Diversidade/Identidade Cultural;
  • Programas de Produção e empréstimo de material didático (kits).

Você já participou de algum destes programas? (;

O que faz um cientista que trabalha em um museu?

     As coleções biológicas, além de contribuírem para o avanço mundial da ciência – através das pesquisas realizadas nesses espaços, contribuem para a sociedade em diferentes áreas, desde saúde pública até o monitoramento de mudanças ambientais. E mais do que isso: quando funcionando em boas condições, os museus, como instituições de pesquisa, permitem a produção de conhecimento a respeito da nossa biodiversidade, servindo de suporte para áreas como agricultura (no uso de recursos naturais, controle de pragas agrícolas, etc.) e saúde (no que cabem insetos vetores de doenças e prevenção de eventos catastróficos de saúde pública, por exemplo). Entretanto, o valor inestimável desses espaços e de suas contribuições não é valorizado pela população geral (muito possivelmente pela própria desinformação e pouco diálogo ciência-sociedade) e, por consequência, eles acabam sofrendo com o descaso por parte dos tomadores de decisão – o que resulta na falta de suporte financeiro para a sua manutenção e melhoria. Portanto, em tempos de crises econômicas, os museus, assim como as demais instituições de pesquisa, acabam sofrendo com o descaso e os cortes de orçamento. Aos olhos leigos, a manutenção de um prédio que abriga peças, aparentemente, sem função aplicada à sociedade parece cara e desnecessária. Todavia, se compararmos com os benefícios, subvalorizados, dessas instituições veremos que os “gastos” são ínfimos perto do custo que ausência dessas representaria. Vejamos alguns exemplos.

     Pesquisadores vinculados a museus podem examinar coleções e, através de suas pesquisas, descobrir algo que esteja sendo danoso à natureza e à humanidade e apontar os possíveis causadores desse dano, prevenindo que uma catástrofe maior ocorra. Na área da entomologia (estudo dos insetos), as coleções têm um valor imensurável; a partir delas é possível acumular registros de distribuição de espécies (algumas delas até mesmo já extintas), o que pode ser usado para comparar registros antigos aos recentes. Com isso é possível, por exemplo, observar que espécies de abelhas estão desaparecendo devido ao aumento da urbanização. Outro exemplo de importância das coleções científicas é no que envolve saúde pública; a partir dessas pode-se traçar o histórico de doenças e seus vetores (distribuição do mosquito da Dengue ou do barbeiro da Doença de Chagas, por exemplo), produzindo informações utilizáveis para a implementação de medidas de controle de doenças e infecções. A partir da análise de coleções biológicas também é possível, por exemplo, encontrar compostos tóxicos e cancerígenos presentes no meio (metais pesados nos tecidos de peixes, por exemplo). Será que não vale a pena mesmo gastar com museus?

gif dunkleosteus

Modelo didático de Dunkleosteus terrelli criado por pesquisadores do American Museum of Natural History. Este peixe placodermo viveu no período Devoniano, há mais de 360 milhões de anos.

Quem sustenta um museu?

     Não demorou muito para que o clima de polarização que vivenciamos atualmente tomasse conta do debate acerca do Museu Nacional. “Se a iniciativa privada tomasse conta, isso não aconteceria”. “A culpa é do governo. Se investissem em educação e cultura isso não aconteceria”. Você provavelmente deve ter ouvido alguma dessas (ou ambas) frases nos últimos dias. Se analisarmos bem, a verdade é que o sustento de um museu vai muito além do seu aporte financeiro. De qualquer maneira, aqui trouxemos alguns exemplos de financiamento. Assim cada um pode tirar sua própria opinião a respeito, não é mesmo?

louvreMuseu do Louvre: é o maior e provavelmente o mais famoso museu de arte do mundo. Só no ano de 2017 recebeu aproximadamente 8,1 milhões de visitantes. Sua coleção é dividida entre oito departamentos principais: antiguidades egípcias, antiguidades do Oriente Médio, antiguidades gregas, etruscas e romanas, arte islâmica, escultura, artes decorativas, pinturas, impressões e desenhos. Historicamente, o Louvre foi mantido integralmente pelo governo francês, mas isso tem mudado nos últimos anos (desde a década de 1990, aproximadamente). A cada ano que passa, o museu tem se tornado mais e mais independente do Ministério da Cultura francês. O governo ainda é responsável pelo pagamento de custos operacionais (salário de funcionários, segurança e manutenção). Todo o resto (inclua nisso novas aquisições, por exemplo, que geralmente custam uma fortuna) é de responsabilidade do próprio museu. Mas saiba que nem tudo são rosas. É óbvio que esse modo de gerenciamento não agrada todo mundo. Em 5 de fevereiro de 2015, por exemplo, cerca de 100 arqueólogos protestaram contra o crescente envolvimento privado e comercial no gerenciamento do museu, alegando que estavam “protegendo a herança da França”.

national air space museumNational Air and Space Museum: o Museu Nacional do Ar e do Espaço, do Instituto Smithsoniano, fica em Washington, D.C. (Estados Unidos) e é, provavelmente, o mais popular dos museus do Smithsonian (é aquele que aparece no filme dos Transformers, lembra?). Nele está contida a maior coleção de aeronaves e naves espaciais de todo o mundo. É o terceiro museu mais visitado do mundo, com administração própria e metade do orçamento de origem do governo norte-americano.

     Metropolitan Museum of Art: o Museu Metropolitano de Arte está localizado na cidade de Nova York (Estados Unidos) e é o maior museu de arte dos Estados Unidos. É também o quarto museu mais visitado do planeta. Muito embora a cidade de Nova York seja a detentora oficial do prédio do museu e contribua com alguns serviços públicos (como aquecimento e parte do custo de manutenção), as coleções em si são de propriedade de um fundo privado (composto por cerca de 950 pessoas). A instituição é administrada por um conselho de 41 curadores e membros eleitos, vários funcionários da cidade de Nova York e pessoas homenageadas pelo conselho.

Visita interativa ao Metropolitan.

Tem museu em Curitiba?

    Tem sim! E pra tudo quanto é gosto. Museus históricos, de arte ou de história natural. Abaixo listamos apenas alguns (poucos) deles.

museu egipcio

Museu Egípcio e Rosacruz: unidade da Universidade Rose-Croix Internacional, localizado em seu Campus Metropolitano e mantido pela Ordem Rosacruz. O Museu está dividido em duas seções: Egípcia e Rosacruz. No Museu Egípcio, destaque da instituição, há réplicas de objetos relacionados ao Antigo Egito cujos originais se encontram conservados no acervo de diversos museus europeus, egípcios e norte-americanos. Assim como na antiga seção sobre o Egito Antigo do Museu Nacional, os objetos em exposição no museu curitibano relacionam-se a muitos aspectos da vida daquele povo, assim como à sua organização social, sua religião e sua política.

museu expedicionarioMuseu do Expedicionário: tem por objetivo apresentar parte da história da Segunda Guerra Mundial, em especial aquela relacionada à participação da força expedicionária brasileira. A ideia do museu surgiu logo após o fim da Segunda Guerra, quando expedicionários paranaenses iniciaram uma campanha de arrecadação de fundos destinada à construção de uma sede própria. Inicialmente constituíram um órgão associativo denominado Legião Paranaense do Expedicionário, em 20 de novembro de 1946. Inicialmente sua função era essencialmente assistencialista, destinada à própria comunidade expedicionária. Através da promoção de eventos beneficentes, rifas e doações foi então construída a Casa do Expedicionário, cuja inauguração ocorreu em 15 de novembro de 1951. Na década de 1980 foi firmado um acordo com a Secretaria de Estado de Cultura do Paraná, passando a ser o governo paranaense o responsável pela manutenção e segurança daquilo que atualmente conhecemos como Museu do Expedicionário. É sem sombra de dúvidas um dos mais completos museus brasileiros sobre a Segunda Guerra Mundial.

 museu botanicoMuseu Botânico Municipal: também chamado de Museu Botânico Gerdt Hatschbach, em homenagem ao naturalista alemão que o fundou na década de 1960. Tudo começou a partir da “doação” da coleção particular de Hatschbach, composta na época por mais de 18 mil exsicatas (plantas secas, tratadas e fixadas em cartolina, identificadas e preservadas). A primeira sede do Museu Botânico Municipal foi o Passeio Público (até o ano de 1975), quando a instituição foi transferida para o Horto Municipal do Guabirotuba. Com a inauguração do Jardim Botânico, em 1992, o museu foi novamente transferido e atualmente conta com um bom espaço para exposições, uma biblioteca e até mesmo auditório. Também é local de produção de conhecimento científico, com pesquisadores associados à diversas instituições (UFPR, por exemplo). Seu acervo é composto por aproximadamente 400.000 exsicatas e até pouco tempo atrás era considerado o quarto maior herbário do país, ficando atrás de instituições como o próprio Museu Nacional.. Provavelmente agora tenha assumido (por um caminho extremamente infeliz) a terceira posição. Atualmente é administrado pelo Departamento de Produção Vegetal da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Curitiba.

museu capaoMuseu de História Natural Capão da Imbuia (MHNCI): seu início remonta ao século XIX, quando ainda era associado ao Museu Paranaense. Seu caráter científico, entretanto, só veio a surgir verdadeiramente em meados do séc. XX. Em 1956 as seções biológicas e geológicas do Museu Paranaense foram desmembradas, originando o Instituto de História Natural, então ligado à Secretaria da Agricultura do Estado. No dia 14 de agosto de 1963, passou a ser chamado Instituto de Defesa do Patrimônio Natural (IDPN), transferindo-se para o bairro Capão da Imbuia – local em que está situado até hoje. O MHNCI atualmente funciona como uma divisão do Departamento de Pesquisa e Conservação da Fauna da Secretaria Municipal do Meio Ambiente da Prefeitura de Curitiba, após passar por diversos outros deslocamentos entre secretarias e departamentos municipais. Assim como o Museu Nacional funcionava, o MHNCI realiza pesquisas científicas e atividades de educação ambiental, mantendo um banco de dados zoológico que se constitui como um dos melhores acervos de história natural do Paraná. Vale ser também destacado que o acervo do MHNCI se encontra tombado como Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná (Lei Estadual 1211, de 16/09/1953) e sua sede se constitui como Unidade de Conservação Municipal (Decreto Municipal 252, de 10/05/1994).

museu ciencias naturaisMuseu de Ciências Naturais da UFPR: Fundado em 1994 pelo Professor Euclides Fontoura da Silva Junior e atualmente sob curadoria do paleontólogo Msc. Fernando Sedor, desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão. Localizado no Setor de Ciências Biológicas no Campus Centro Politécnico da UFPR, conta com um vasto acervo educativo-científico no que compete zoologia e paleontologia, como réplicas de fósseis, animais taxidermizados (empalhados) e animais vivos (cobras e bichos-pau). O museu é aberto ao público durante os dias de semana, tendo o projeto “Ciência Vai à Escola” focado a escolas e colégios do ensino fundamental e médio, funcionando como uma importante instituição na educação e divulgação científica.

museus

A dinâmica da produção de conhecimento nos museus.

     Ultimamente tem parecido que nós, brasileiros, nem mais nos reconhecemos  como um povo, como uma só nação. A destruição do Museu Nacional é apenas mais um sintoma. Gravíssimo, mas, se pararmos para pensar, nem tão surpreendente assim. Como bem ressaltou recentemente o historiador Filipe Figueiredo, não é assim que as coisas deveriam funcionar. “Museus estão nos pilares de sustentação de qualquer sociedade, fios importantes no tecido social. Onde se encontram muitas perguntas e se buscam as respostas: Quem somos? Da onde eu vim, qual a origem do meu nome? Onde estou, o que é esse lugar, o que explica ele estar assim?”

     Mas podemos deixar esse assunto pra lá, né? Professor de História (assim como todo professor de Humanas) é tudo ‘vagabundo, comunista, doutrinador, gayzista e maconheiro’. ‘Tem mais é que extinguir os cursos de humanas das universidades públicas mesmo’. ‘Em pleno ano de eleições querem que a gente se importe com museu, enquanto o país sofre com crise econômica, desemprego e falta de segurança’. ‘Tem que cortar verba mesmo’, dizem. “Já pegou fogo, quer que eu faça o que?” – disse aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Não tem o que fazer mesmo? Medidas governamentais contra o desemprego automaticamente anulam as demais? Simplesmente devemos deixar de nos preocupar com a nossa história? Nós, do Acadêmica Mente, sinceramente acreditamos que NÃO. E esperamos que se você já não enxerga isso, que este texto ao menos faça você refletir, nem que seja por 1min. Mais uma vez, citamos as palavras de Felipe Figueiredo: “Que não se negue a existência de uma miríade de outros problemas,  não se iluda achando que é o que acontece hoje na Quinta da Boa Vista é algo menor. Para uma sociedade sair do buraco, ela precisa, primeiro, saber que é uma sociedade”.

Um povo que não conhece sua História, que não a valoriza, certamente não está preparado para lidar com seu o futuro.

Texto escrito por Felipe Walter e Matheus Salles, estudantes de Ciências Biológicas (UFPR).

 

INDICAÇÕES DE LEITURA E MAIS ALGUMAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MARANDINO, MARTHA. Transposição ou recontextualização? Sobre a produção de saberes na educação em museus de ciências. Revista Brasileira de Educação, 2004. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=27502608>.

VALENTE, M. E.; CAZELLI, S.; ALVES, F. Museus, ciência e educação: novos desafios. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 12 (suplemento), p. 183-203, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v12s0/09>.

Texto Xadrez Verbal: https://xadrezverbal.com/2018/09/02/e-a-sua-historia-que-esta-queimando/

Vídeo Meteoro Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=dcLJor6n4xo&t=504s

Vídeo Nerdologia História: https://www.youtube.com/watch?v=cHkp8h0HQss&t=571s

Vídeo Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=GpkPYn35zYI

Museus como espaços de Aprendizagem, Canal Futura: https://www.youtube.com/watch?v=FKWMdE2bnIo)

SOBRE OS MUSEUS

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_do_Louvre

https://en.wikipedia.org/wiki/Louvre

https://en.wikipedia.org/wiki/Metropolitan_Museum_of_Art#Management

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_do_Expedicion%C3%A1rio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Bot%C3%A2nico_de_Curitiba

http://inct.florabrasil.net/participantes/herbarios-curadores/mbm-museu-botanico-municipal-curitiba-pr/

https://mhnci.webnode.com/

CURIOSIDADE: o último presidente brasileiro a visitar o Museu Nacional foi Juscelino Kubitschek, em 1958.

     https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/bicentenario-museu-nacional-o-mais-antigo-do-pais-tem-problemas-de-manutencao.shtml

     https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/03/museu-nacional-ja-teve-visitas-de-albert-einstein-madame-curie-e-santos-dumont.ghtml

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